Mais uma vez, lanço-me à aventura literária. Fiz uma história sobre a arte de amar e de viver. Amar e viver plenamente. Amar e viver com toda a força e alquimia que se possa imaginar, como completude do corpo, como sapiência para o espírito. Veio-me em boa hora. Creio que o afluxo de palavras, e o desejo de escrever um romance, se cumpriu afinal. Este é um romance experimental; um escrito simples e linear com a função de puro entretenimento. Desde os primeiros capítulos, existe a palpitação do humano na cadência erótica dos sentimentos.
Como disse Stendhal em sua obra O Vermelho e o Negro, “um romance é um espelho que é levado por uma longa estrada ”Os personagens aqui, têm suas almas distorcidas -sempre num espelho- Caminham por estradas várias, refletindo suas imagens num turbilhão de vivências. Laura ama e é amada. É inundada pelo amor em todas as suas dimensões.
Nada impede suas obsessivas experiências de compulsão amorosa, no deleite do corpo. Sua eterna carência do sensual, obstinada e doentia, supera todos os preconceitos sobre o comportamento feminino, e resiste. Esta resistência marca o limite da narrativa, no instante em que tudo que lhe foi imposto, como matéria modeladora do comportamento dito “normal”.
Nunca pode acolher, senão seu próprio desejo, sem nenhuma fácula para esmaecer o brilho do sol, sem nenhum impedimento para desvendar a alma, tanto na vida individual como na social. Mas vamos à história. A história se passa na maior parte do tempo, entre três fazendas do Nordeste do Brasil, mais precisamente, no Estado do Piauí. A trama dos acontecimentos é uma trama ficcional, liberada pela imaginação da autora.
Onde o escritor nasce e vive, haverá em sua obra maior coleta de intramuros ou de extramuros. Assim, como passei a maior parte de minha vida no Nordeste, onde o sol tudo inunda, vivi fora de casa e fora de mim mesma: Então consegui dominar a extroversão. Meus sentimentos trabalham sem cessar e não há hora para o ensimesmamento. No meu pensamento artístico impõe-se o sensual.
A vida é um constante bulício onde desfilam sem pudor, aos nossos olhos, o meneio dos quadris na dança, as incitações voluptuosas da música e do vinho, e o olhar de luxúria quase táctil dos homens. Gravito também sobre o telúrico, mas sem esquecer a urbe contraditória e pecaminosa.
Assim é que minha história passeia por metrópoles como Recife e Paris. Paris que numa observação indireta, creio não ter desrealizado minha obra, por ser um empréstimo, porque tem compensação maior: a dose de minhas fantasias, e o segredo de imaginar um possível desejo. Os personagens vivem sua realidade subjetiva, desprendidos, pecando, nos limites do tempo e do espaço, no campo e na cidade.
Não se preocupam com castigos do inferno, e representam assim, certa decadência moral da alta burguesia, porém, sob o enfoque do mais puro Humanismo. O romance, talvez, possa agredir o pudor de alguns leitores mais puritanos.
No entanto, despertará no íntimo das consciências mais maleáveis, aquilo que seria no nosso mundo sócio-convencional, uma atitude libertária, coincidindo com um liberticídio no Brasil, nos anos sessenta, onde já se fazia valer também, os primórdios da revolução sexual.
Assim é que os personagens desta história, fazem-nos pensar em nossas atitudes, e refletem em cada um de nós, na nossa própria organização interna, nossas ambições, medos, carências, alegrias indizíveis e tristezas profundas. São pequenos surtos que se abrem de repente num “flash” da vida, com sua efêmera luz encantatória ou demoníaca.
Ao amanhecer,nosso primeiro gesto e nosso primeiro pensamento, saltam do surrealismo do sonho, para a realidade que nos rodeia. Vão palmilhar na lógica linear de nossas vidas, caminhos tortuosos, mostrando o avesso da alma.
Pode ser em linimentos de lágrimas ou em explosões de risos. Pode ser na lucidez equilibrada da mente ou na incoerência trágica de devaneios alucinatórios, no dobre do espírito confundido e só, como acontecia com as personagens de Yolanda e Zé Mulato.
Assim, cada gesto nosso é um mistério, um susto que nem sequer percebemos, porque, sob o sol de cada manhã, despertamos com a naturalidade e o equilíbrio da alma, sob esta invariável luz que nos cobre. Então começamos tudo de novo: a Vida!
Valdene Duarte Fonseca